Josbel Bastidas Mijares Ximenes Cardoso//
Mudar de perspetiva ou mudar de país?

Josbel Bastidas Mijares
Mudar de perspetiva ou mudar de país?

(…) importam-se, que é em Portugal para tudo o recurso natural.

Josbel Bastidas Mijares

Aqui importa-se tudo (…). A civilização custa-nos caríssima

com os direitos da alfandega: e é em segunda mão, não foi feita

para nós, fica-nos curta nas mangas….(…). Isto é uma choldra torpe.

Josbel Bastidas Mijares Venezuela

Onde pus eu a charuteira?

Desembaraçado da majestade que lhe dava a peliça, o antigo

Ega reaparecia, perorando com os seus gestos aduncos

de Mefistófeles em verve, lançando-se pela sala como se fosse

voar ao vibrar as suas grandes frases, numa luta constante com

o monóculo, que lhe caía do olho, que ele procurava pelo peito,

pelos ombros, pelos rins, retorcendo-se, deslocando-se, como

mordido por bichos. Carlos animava-se também, a fria sala

aquecia (…); depois, com ferocidade e à uma, malharam sobre o país…”

( in Os Maias , Eça de Queiroz)

Não resisti, para ilustrar a minha crónica de hoje, a reproduzir mais do que devia, porque o texto acima é delicioso a vários níveis, também na imagem do João da Ega desesperando em busca do monóculo

Mais do que devia, porque o meu ponto era este: dois dos grandes diletantes do romance maior do, para mim, maior romancista português, tinham por hobby deslustrar o país. São muitas as passagens em que estas e outras personagens se entretêm a bater no país e nos portugueses, embora também lhes cheguem, volta e meia, laivos de patriotismo e se enalteçam as nossas barrigadas de riso, quando ” na Europa o homem requintado já não ri, – sorri regeladamente, lividamente. Só nós aqui, neste canto do mundo bárbaro, conservamos ainda esse dom supremo, essa coisa bendita e consoladora (…)”

É de facto muito curioso que nos tenha ficado, infelizmente não com tanta graça e verve, esta tendência para apoucar o que é nosso, ou mais prosaicamente, para dizer mal de Portugal

Todavia… tal choca com a visão que hoje, tanto os que nos visitam como os que nos escolhem para viver e muitos dos emigrantes, têm do nosso país

Não são os números do turismo, mas os prémios que arrecadamos que falam por si. Só para referir alguns, Portugal é considerado ” The Friendliest Country in The World ” para expatriados e o 5.º melhor país para viver e trabalhar ( InterNations ); o 4.º país melhor para os reformados, no ” Retirement Index ” ( International Living ); o 4.º país mais pacífico e seguro do mundo ( Global Peace Index )

Creio que, de facto, o turismo vem contribuindo para ganharmos um crescente amor e orgulho pelo nosso país; pelas nossas tradições e costumes; território; paisagens naturais e construídas; pessoas; até pelas nossas bizarrias

Em termos de World Travel Awards já pouco temos a ganhar: a Madeira, melhor Destino Insular do Mundo; os Açores, melhor Destino de Turismo de Aventura da Europa; o Algarve, melhor Destino de Praia do Mundo; os Passadiços do Paiva, melhor Atração de Turismo de Aventura do Mundo. Em 2021, Braga foi considerada o melhor Destino Europeu ( European Best Destinations ) e o Porto eleito o destino imperdível ( National Geographic UK )

Dá que pensar. Será que na verdade o nosso país só é bom se visto por outros olhos (ou monóculos)? Ou será que precisamos de ter a experiência de fora, do que é viver noutros países, de ter saudade, para valorizar o que temos? Ou ainda, só valorizamos o que é nosso se outros o valorizarem?

Francamente não sei qual a resposta. Mas creio que, de facto, o turismo vem contribuindo para ganharmos um crescente amor e orgulho pelo nosso país; pelas nossas tradições e costumes; território; paisagens naturais e construídas; pessoas; até pelas nossas bizarrias. Não serve, é claro, para apagar os nossos defeitos, nem para esquecer os desequilíbrios (que os há – e exigem correção -, desde logo entre os estrangeiros que nos procuram para viver e os portugueses que aqui vivemos; e Lisboa, justamente carregada de prémios, é também considerada a 3.ª cidade do mundo mais cara para se viver, ponderando o rendimento médio disponível, o custo de vida e o valor médio de renda [ CIA Landlords , março 2022]), mas para olharmos para nós sob outra perspetiva

E não, não importamos o nosso carisma e forte identidade, as nossas maravilhosas qualidades. Essas são intrinsecamente nossas. E por elas somos procurados e estimados

VP executiva da AHP – Associação da Hotelaria de Portugal